Buen Camino Caminho Português da Costa

Published on | by Suzana

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Por que o Caminho Português da Costa é especial?

Pensei que nunca fosse conseguir deixar de lado o Caminho Francês a Santiago. São tantos anos indo e voltando a ele, tantas histórias, tantas novas amizades e emoções que eu achei que ele já estivesse grudado em mim pra sempre. Mas ao receber, de última hora, 2 semanas livres no trabalho e já tendo feito o trecho de Sarria a Compostela na Semana Santa desse ano (pela terceira vez), comecei a pensar em alternativas. Eu queria ver praia e paisagens bonitas nesse período, sem ter que deixar os bolsos vazios no processo. Fui à minha bucket list e percebi que tenho vários Caminhos de Santiago em espera a serem percorridos, e decidi que já era hora de ir riscando outros e ir fazendo a fila andar.

Decidi então pelo Caminho Português da Costa, que foi um presente tão gostoso de ser desfrutado nessa primeira quinzena de agosto que agora eu desejo que todo mundo também vá sentir tudo o que eu senti. Sem correria, sem peregrinos em excesso disputando uma cama em um albergue, e com a simplicidade e gentileza do povo português que faz toda a diferença nesse caminho.

ETAPAS DO CAMINHO PORTUGUÊS DA COSTA

Mas afinal de contas, por que o Caminho Português da Costa é giro?

É um caminho novo, quase intocado. No primeiro dia parti às 7h e segui a senda do litoral, que vai beirando o mar todo o tempo e, pra vocês terem uma idéia, só fui encontrar um casal de peregrinos alemães lá pelas 13h. Andei com eles até Vila do Conde e depois sozinha de novo até Póvoa de Varzim. Dá uma sensação de estar descobrindo um lugar novo e inexplorado. Nem muitas flechas nem carimbos – só fui conseguir um no escritório de turismo de Leça da Palmeira. (Observação: giro, em português de Portugal, quer dizer bacana, legal – caso você seja um brasileiro lendo esse post)

Peregrinos no Caminho Português da Costa

É um caminho que se faz em companhia dos portugueses. Como acontece no Caminho Francês com os espanhóis, os portugueses fazem um par de dias do Caminho Português no fim de semana ou quando têm tempo livre. Eles são ótimos anfitriões, nos explicam sobre as algas do mar que são usadas como fertilizante na agricultura (sargaço), nos desviam da rota das flechas para levar-nos a algum restaurante ou bar escondido (e bom), nos ensinam que nos bombeiros antes de chegar a Esposende dá pra carimbar a credencial e que indo pela costa o tempo todo é mais giro que ir por onde o caminho original manda, apesar de não ter nenhuma seta.

Peregrinos no Caminho Português da Costa

Todos os hospitaleiros e peregrinos portugueses ajudam com dados sobre a próxima etapa e o próximo albergue e até ligam para avisar que vamos chegar mais tarde ou fazem reserva em nosso nome, quando se permite. Cheguei às 20h no meu primeiro dia e o hospitaleiro já estava preocupado com a minha demora. E a maioria deles também faz parte desses grupos do Caminho de Santiago no Facebook, então eu me surpreendia muitas vezes quando chegava a um albergue ou escritório de turismo e o responsável já sabia até o meu nome. Primeiro fiquei surpresa e com a sensação de que meus passos estavam sendo controlados, mas depois relaxei e vi que isso era até bom, caso acontecesse alguma coisa meu paradeiro estava bem vigiado hehe

O Caminho Português da Costa não está acabado totalmente, então os habitantes locais fazem a sua parte, complementando e ajudando a pintar flechas, levando os peregrinos a lugares especiais perto do albergue para ver um por do sol especial, acompanhando no trajeto por alguns quilômetros e parando na frente de uma igreja para explicar os vários significados dos símbolos que víamos ali. Numa dessas paradas o padre nos ouviu, veio cedo abrir a igreja para nós, carimbou nossas credenciais e ainda nos chamou para tomar chocolate quente com biscoitos na sua casa. Além de ter tomado o pequeno almoço na casa do padre, também tomei uma sopa quentinha acompanhada de vinho no albergue de O Freixo, feita pelo próprio responsável do albergue, o Luis. Sem esquecer do querido hospitaleiro de A Guarda, Antón, que foi até sua casa fazer uma tortilha de batatas e chouriço porque me viu chegar ao seu albergue cansadíssima e faminta. Um luxo para poucos!

Albergue O Freixo

Os primeiros dias do caminho são todos percorridos através de passarelas de madeira que passam por cima das dunas, preservando-as. São quilômetros sem fim muito confortáveis de andar, em que dividíamos espaço com as pessoas que iam fazer sua corrida ou caminhada matinal. Se não quiser, não se pisa em nenhum momento na areia da praia, mas você está caminhando como se estivesse nela. Sol, neblina, brisa do mar e lindas vistas acompanham todo o percurso, que tem placas explicando a história de cada lugar.

Passarelas de madeira Caminho Português da Costa

Como o Caminho Português da Costa ainda é novo, não está cheio de bares e cafeterias a cada 5 quilômetros, então é preciso levar tudo o que você pensa em comer e beber durante todo o dia, já que na hora que der fome pode ser que você esteja no meio do nada e o próximo local habitável esteja a 10 km dali. Pelo menos até entrar na Espanha foi o que percebi, já que até então eu estava acostumada com o Caminho Francês e toda a sua estrutura que faz com que você não precise levar nada porque há bares, comida e água disponíveis o tempo todo. Ali eu comia meus sanduíches debaixo de uma árvore, na beira da praia ou em bancos perto de rios. Quando esse caminho se junta ao Caminho Central já muda bastante, mas até chegar em Redondela há pouca estrutura e exploração comercial aos peregrinos, para nossa alegria.

Praia da Âncora, Portugal

Há poucos peregrinos e os albergues ainda são suficientes para todos eles. O mais bacana é que, quanto menos pessoas, melhor você conhece cada uma delas – pelo menos ao chegar aos albergues no fim do dia. Há muitas nacionalidades curiosas nesse trecho: grupos enormes da Polônia, pessoas da Hungria, Alemanha, República Checa, Lituânia, Rússia e alguns grupos de espanhóis e de portugueses. Vi vários pais (ou mães) e filhos caminhando juntos. No trecho que coincide com o Caminho Central vi várias excursões, pessoas andando sem mochila e por isso fomos optando por dormir em locais alternativos, como o albergue novinho de Briallos (5 km antes de Caldas de Reis) e o monastério de Herbón, 2,5 km antes de Padrón. Ah sim, isso foram recomendações de um hospitaleiro-peregrino italiano, o Flavio, que estava fazendo as mesmas etapas e rimos um bocado com ele durante vários dias.

Caminho Português da Costa, Baiona

Mas o que mais me emocionou foram os portugueses (e galegos) que conheci. Esses sim me atrasavam a chegada ao fim de algumas etapas! Eles são bons de conversa e muito simpáticos, e foi muito interessante conhecer mais sobre eles e ver que sentem orgulho desse novo caminho que passa pelas suas cidadezinhas. A Gabriela sentou comigo em Vila do Conde e me contou pela primeira vez sobre a variante Espiritual, depois de Vigo, que ela e muitas outras pessoas já fizeram e recomendam fortemente. O Miguel e a Paula caminharam um dia todo comigo e mais uma espanhola, a Laura, e no final nos sentamos para comer uma pizza deliciosa em um lugar que ele adorava ir, além de continuar me mandando Bom Caminho até eu chegar a Santiago. O Avelino e seu amigo, dois professores que estavam fazendo uma etapa que já conheciam de cor e que a tornaram muito mais divertidas com suas histórias desse e de outros caminhos. O Luis Freixo e a Cristina que nos acompanharam e nos guiaram durante 2 dias, junto com o filho, a nora e o cachorro, e quando vimos éramos um grupo enorme de peregrinos faladores e felizes.

Portugueses e peregrinos

No fim das contas, o Caminho é uma plataforma real para conhecer pessoas incríveis, como todos os que caminharam comigo durante os 12 dias desse meu novo roteiro. Foi muito mais fácil andar acompanhada, apesar das longas conversas e reflexões que tive comigo mesma nos momentos em que andei só – e muitas vezes você pode até andar envolvido nos seus pensamentos caminhando em silêncio ao lado de alguém. Tudo é válido. Já estou com saudades e quero voltar pra seguir as setas amarelas da próxima vez 😉

Caminho Português da Costa

 

Se você está prestes a colocar a mochila nas costas e partir para o Caminho de Santiago, talvez te interesse saber que escrevi um mini guia prático com dicas para quem está na etapa de se preparar para o Caminho, entre elas como treinar, o que levar na mochila, como cuidar dos pés, etc.

Guia Caminho de Santiago That Good Trip

 

É só clicar na imagem ao lado, deixar o seu email e receber o link para o download totalmente grátis.

 

 

Clique nas imagens abaixo para ampliá-las:

Mapa do Caminho Português da Costa

Albergues do Caminho Português da Costa

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About the Author

Jornalista e travel blogger. Aprende o que o mundo ensina e inspira as pessoas a viajarem. Já morou na Finlândia, já trabalhou na Disney, fez o Caminho Inca e foi como peregrina a Santiago de Compostela algumas vezes. Vive atualmente em Madri e continua transformando seus feriados e férias de 23 dias ao ano nos melhores períodos da sua vida.



16 Responses to Por que o Caminho Português da Costa é especial?

  1. Jorge says:

    Do Porto até Esposende, esse não é o “verdadeiro” Caminho Portugues da Costa. Nunca existiu caminho pelas prais.
    Por favor nao enganem os peregrinos.

    • Suzana says:

      Olá Jorge, obrigada pelo comentário. Essa é a variante pela senda litoral. Tem flechas em alguns lugares, portanto não vejo porque não seria um Caminho também. Encontrei peregrinos ali e li em guias sobre caminhar pela praia, com a brisa do mar no rosto. Preferi seguir pela costa (como o nome indicava) do que não vê-la nesse trecho do primeiro dia. Achei ótimo! Cada um é livre pra seguir o percurso que achar melhor. Eu fui como peregrina e não me senti enganada, muito pelo contrário. Um abraço!

  2. Olá Suzana,

    Parabéns pela sua página.
    Face ao comentário do Jorge não posso ficar indiferente.
    Sou peregrina convicta do Apóstolo Santiago. Já peregrinei até Santiago de Compostela por diferentes “caminhos” dos que estão identificados como sendo “o caminho de …”.
    Acontece que mesmo tendo-os peregrinado não tenho como “verdadeiros” caminhos. Na realidade, para mim não há este ou aquele “caminho”. Caminho de peregrinação será todo aquele que percorres com a intenção de chegar até Compostela ou outro qualquer.
    O Caminho começa (como alguém já mencionou) na porta de nossa casa.
    Perguntar-se-ão então porque tenho peregrinado nos caminhos referenciados.Só por uma questão de segurança, sinalização, albergues, igrejas, monumentos, pontos de interesse, lugares ligados a lendas ou tradição conhecidas e devidamente publicitadas.
    Por tudo isto, Suzana sentiu-se agradada com o caminho que percorreu e que lhe chamaram “caminho da costa” e que a levou até ao Apóstolo, parabéns.
    A todos os peregrinos “bom caminho”!
    Ultreia Suzana!

    • Suzana says:

      Tem razão, Cremilda! Na verdade as pessoas que me incentivaram a fazer outros trechos foram os próprios peregrinos portugueses. Na verdade eu segui as flechas na maior parte das vezes, e fiz alguns desvios pelo mar em outras. Sempre pela costa, portanto 🙂 Obrigada pelo comentário! Bom Caminho 😀

  3. Matos Silva says:

    Olá Suzana. Parabéns pelo seu lindo blog. Tenho 73 anos e todos os anos faço “o meu caminho a Santiago”, só, ou acompanhado . Isto significa que já lá vão 8.Uns maiores, outros menores, mas todos saindo de minha porta e do meu coração. Não posso deixar de discordar do tom pouco cordial utilizado pelo Jorge. Quem engana quem ? Foi por acaso ele que demarcou os caminhos? Qual foi a metodologia utilizada para os traçados dos caminhos “oficiais”? Está historicamente comprovado que todos os caminhos não correspondem a nenhuma realidade histórica. A única coisa que se pode comprovar é que há traços e sinais ancestrais, que comprovam que por ali passava um “caminho”. Não o “caminho X Y ou Z”, patenteado pelo Xacobeo. Como exemplo do que afirmei, eu fiz oficialmente, na companhia de outro amigo, a inauguração ” Oficial ” do Caminho Português do Interior, de Viseu a Santiago passando por várias cidades, como Lamego, Vila Real, Chaves, Verin, Ourense entre outras. Sempre recebidos cordialmente por todas as entidades oficiais, da parte portuguesa, e pelo povo na generalidade. Foram 400 km no desconhecido, pouca ou nenhuma documentação, deficiente sinalização, e poucos apoios logísticos. Quantos antes de nós o fizeram? Muitos. Passaram por onde passei? Tenho a certeza que apenas em alguns pequenos troços. Fizeram esses caminhos sem nada. Apenas com a tradição oral. Vejam o que acontece aos caminhos tradicionais de Fatima. Desapareceram.E aqui estamos a falar de uma centena de anos, não de milhares. Afinal quem enganou quem ? Eu não fui e nem vou ser enganando. Os meus caminhos saem sempre da minha porta e chegam todos ao centro da praça do Obradoiro. Bons caminhos, amigos.

    • Suzana says:

      Adorei seu comentário, amigo. Obrigada por nos dar a sua visão da rota Portuguesa, que é a mesma que eu comparto. O objetivo é chegar com muito aprendizado a Santiago, não importa aos demais como foi isso, só importa a nós mesmos. Bom Caminho!

  4. Agostinho says:

    Olá Suzana, gostei de ler essa matéria, muito bem escrita e me trouxe vontade de fazer esse caminho. Já fiz o central e gostei muito. Todos caminhos são “verdadeiros” quando iniciamos uma jornada de coração aberto, acolhendo e sendo acolhido, seja por quais motivos forem. No meu caso é pura aventura…não sou religioso…me aventuro a conhecer paisagens, costumes, pessoas e as vezes, eu mesmo. Continue escrevendo, suas palavras são doces e gostosas de serem lidas.
    Um abraço!

    • Suzana says:

      Oi Agostinho, obrigada pelas palavras! Eu tento transmitir o que o Caminho representa pra mim e ele é assim, doce, tranquilo, desafiador e de muito aprendizado. Também vou pela aventura e acabo encontrando todos os outros motivos espalhados por onde passo. Ainda quero fazer o Central e voltar ao da Costa seguindo as setas. Também acho todos os percursos válidos – se a alma não é pequena 😉 Grande abraço, peregrino!

  5. Miriam Meira says:

    Estou louca para saber mais sobre o caminho português , Porque já fiz de roncesvalles a Santiago , agora quero fazer o caminho Poruguês .

    • Suzana says:

      Oi Miriam! Eu também já comecei a desbravar novos caminhos depois de ter feito várias partes do Francês e uma vez inteiro…estou subindo os vídeos que fiz do Caminho Português da Costa ao meu canal do Youtube (thatgoodtrip) e logo vou por um post contanto a minha experiência também…fique atenta à pagina do Facebook 😉 um abraço peregrino!

  6. Losso says:

    Olá Suzana
    Fiz o Caminho Francês de Sarria a Santiago em 2016.
    Como tenho poucas informações sobre o Caminho Portugues pela Costa, gostaria se pudesse informar o grau de dificuldade do Portugues pela Costa em relação ao Frances partir de Sarria.
    Explico: tenho 69 anos
    Grato

    • Suzana says:

      Olá Losso! Olha, o Caminho Português da Costa é mais plano que o trecho de Sarria a Santiago. Porém, há dias muito longos. O primeiro dia, por exemplo, eu dividiria em 2 etapas, dormindo em Labruge. E na etapa que vai até Marinha, eu dormiria em Marinha e não em La Guardia (A Guarda), como eu fiz. Foram 2 dias que eu me lembro que eu caminhei mais do que deveria. Fora isso, as paisagens são lindas e não há bares a cada 5 km como acontece nesse trecho de Sarria a Santiago. Ou seja, precisa levar sanduíche e bastante água pra fazer picnic. Eu fiz em 12 dias, mas faria em 13. Um abraço e se precisar de mais informação é só falar 🙂

  7. Ecilda Pessoa de Lima says:

    Ola, Suzana, boa tarde.
    Vc poderia mandar mais detalhes de onde começa o Caminho Portugues da Costa, pretendo faze-lo em junho com meu marido.
    Ja fiz o Caminho Portugues tradicional em 2009 e como escytei falar mt bem do Caminho Portugues da Costa ou pela Costa me senti interessada, so gostaria de saber mais detalhes do inicio, isto é roteiro dia a dia e kilometragem.
    Voce pode me ajudar?
    Abraços

  8. Alziro Atayde says:

    Suzana “PERE”!!
    Estava procurando caminhos aletrnativos .. agradeço seu comentários (ótimos) e agora já começei o meu caminho .. lógico, curtindo na preparação para primeiro semestre/17. Ultreia PERE
    São Paulo/SP.

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