Buen Camino Camino de Santiago Ingles

Published on | by Suzana

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Caminho Inglês – de Ferrol a Santiago em 6 dias

Esse ano eu ganhei o 3º prêmio no II Certame Internacional de Investigación do Camiño Inglés, na categoria de diários peregrinos. Nem preciso dizer que fiquei feliz da vida quando recebi o diploma em casa! 😀

Certamen Internacional de Investigación del Camino Ingles

Diploma escrito em galego 😀 😀 😀

Percorri os 155 Km do Caminho Inglês, de Ferrol a Santiago de Compostela, no ano de 2016, durante 6 dias. O relato abaixo é a tradução ao português do texto que enviei ao concurso. As fotos são pra ilustrar melhor a experiência e para inspirar mais pessoas a conhecerem o Caminho Inglês. Boa leitura e Bo Camiño!

Caminho Inglês de Santiago

“No ano passado, ao voltar ao Caminho de Santiago pela sétima vez, escolhi fazer um trecho diferente dos anos anteriores: o Caminho Inglês. Ultimamente tenho um pouco de medo do que o Caminho está se tornando. Há muita gente, muitos turistas, muito desrespeito dos peregrinos nos albergues por doação (justamente porque muitos não costumam contribuir com essa doação), muito desrespeito dos comerciantes em relação aos peregrinos (aumentando seus preços)… acabamos nos convertendo em uma fonte de “euros caminhantes”, especialmente no Caminho Francês, que já percorri em várias ocasiões (uma delas o trecho completo, de Saint Jean Pied de Port a Finisterre em 36 maravilhosos dias).

Toda vez que eu ouço que os diferentes Caminhos estão se massificando, me dá pena e angústia ao mesmo tempo, porque há muitos caminhos para conhecer ainda e eu quero poder ter a experiência bonita dos anteriores. Mas, pra isso, acho que tenho que me apressar.

Pescaderia em Ferrol

Pescaderia em Ferrol

Ferrol

Ferrol

O Caminho Inglês foi interessante e cheio de lições diferentes dos outros caminhos. Porque, como há menos pessoas, você está mais tempo sozinho com você mesmo.

E como foi a minha aventura no Caminho Inglês?

Depois de passar a noite no ônibus, vinda de Madrid, tomei café da manhã em Ferrol e fui à Concatedral de San Julián de Ferrol. Como ela só abriria às 10:30, sentei-me no muro em frente e esperei para poder solicitar a credencial e o primeiro carimbo. Em julho, o escritório de recepção de peregrinos ainda não funcionava e a cabine de informações turísticas não tinha credenciais. [atualização: ele já funciona, mas só dá informação; a credencial continua sendo emitida apenas na igreja de San Julián]. A igreja abriu e fomos convidados pelo sacerdote para entrar na sacristia. Comprei a credencial, ganhei o primeiro carimbo e só então soube que o outro menino que estava lá fora era italiano. Ele, como eu, também tinha apenas uma semana de férias e decidiu fazer o Caminho Inglês por esse motivo: o curto espaço de tempo disponível. Mas nos separamos em seguida, porque ele ainda ia tomar café e eu estava pronta para começar a caminhar.

Concatedral de San Julián em Ferrol

O primeiro dia no Caminho de Santiago é sempre o mais desafiador. Nele você se sente como um bebê dando seus primeiros passos. Apesar de ter vivido a experiência do Caminho anteriormente, essa sensação sempre me invade. E eu não tenho escolha senão curtir o momento, lembrar do quão especial é voltar a por os pés na estrada, sentir as borboletas no estômago por não saber se você está indo bem, se está caminhando muito devagar, se perdeu uma seta amarela ou se você é o único caminhando com uma mochila nas costas e bastões de trekking. E tirar fotos da marcação inicial, da concha na parede, da tua sombra no chão… sim, os peregrinos às vezes somos espécies raras.

Já quase chegando ao final da primeira etapa, com o sol começando a castigar meus braços e a cabeça, encontrei um casal de peregrinos sentados, suando bicas e com um mapa na mão. Perguntei, como sempre faço, se tudo estava bem, e eles disseram que sim, mas não sabiam se faltava muito para chegar a Neda, o fim da primeira etapa. Eram italianos. Eu respondi que eu também não sabia, mas que podíamos continuar caminhando juntos e que eu perguntaria a quem passasse.

Começamos a caminhar. Ana Maria abriu um sorriso e iniciamos uma conversa, enquanto o marido, Marco, vinha mais atrás em silêncio. Tive a sensação (que seria repetida muitas vezes depois) de que ela precisava conversar com alguém diferente. Falávamos metade em italiano, metade em inglês, e nos entendíamos bem. De vez em quando também incluíamos uma ou outra palavra em espanhol. Parecia uma conversa de loucos, daquelas que são ótimas para passar o tempo enquanto avançávamos.

Chegamos a Neda. Albergue cheio. O hospitaleiro não estava. Algumas camas pareciam estar “reservadas” com uma camiseta, como se alguém tivesse chegado mais cedo e guardado lugar para os demais. Liguei para o hospitaleiro (o telefone estava em um papel na janela do albergue), ele me disse que só viria à noite para registrar as pessoas e que buscássemos camas livres no quarto reservado para deficientes. Lá também havia duas camas “reservadas” e um beliche livre. Eu disse ao casal italiano que se instalassem nesse beliche e que, se chegasse quem precisasse usar o quarto por suas condições físicas, buscaríamos uma alternativa. Eles se preocuparam comigo antes de aceitar, mas eu deixei minha mochila lá, fui tomar banho e disse que, à noite, quando chegasse o hospitaleiro (que já deveria estar ali colocando ordem nas coisas, mas não estava), eu procuraria onde dormir, mesmo que fosse no sofá da entrada do albergue.

Albergue de Neda, no Caminho Inglês

Albergue de Neda, no Caminho Inglês

Ao comentar com uma senhora que estava tomando banho o que estava acontecendo (sobre a marcação de camas), ela ficou em silêncio e não continuou a conversa. Mais tarde, quando voltei do jantar, ela me chamou e disse: “nós reservamos duas camas, mas eu vou usar apenas uma. Se quiser, a outra é sua”. Fiquei perplexa, mas coloquei minha mochila lá e agradeci-lhe. Ou ao Universo, talvez. Porque a justiça peregrina foi feita, mesmo que tarde. Essa justiça nunca falha.

Na manhã seguinte, o casal italiano estava me esperando para que começássemos juntos o segundo dia. Adorei ter alguém me esperando para sair juntos! Mas este dia estávamos preocupados, porque tanto o albergue público como o privado de Neda estavam cheios, e isso significava que em Pontedeume ia acontecer de novo. Não queríamos que fosse uma corrida de obstáculos. Nós aproveitamos o nosso dia, caminhamos no nosso ritmo, até tiramos fotos com a palha recém recolhida nos campos e, ao chegar ao fim da etapa do dia (maravilhando-nos com o rio, os barcos e toda a paisagem ao nosso redor), havia apenas uma cama no albergue municipal. O casal italiano decidiu devolver o favor: deixaram a cama pra mim e foram a um hotel. A partir desse momento, percebi o quão bonito era pensar os outros em vez de pensar primeiro em você. Um dia você faz algo por alguém, outro dia fazem isso por você. Percebi a força que as boas ações têm. Tudo volta a você um dia. Você não precisa esperar por isso, tudo voltará quando tiver que ser. Foi um momento mágico para mim, eu me senti muito especial. E nossa amizade só cresceu, dia após dia.

Pontedeume, no Caminho Inglês

Pontedeume, no Caminho Inglês

O trecho até Betanzos, já no terceiro dia, fizemos meio juntos, mas na última parte eu decidi parar para ver uma igreja, enquanto eles continuaram em um ritmo mais rápido. Finalmente, ao chegar à longa fila do albergue, fui uma das últimas, mas consegui uma cama! O albergue fica em um edifício histórico, mas completamente reformado e moderno por dentro. Adorei! A famosa tortilha de batata da “Casa Miranda”, que comi com o casal (já estávamos inseparáveis), era muito suculenta e saborosa! E agora a Ana Maria e o Marco estavam viciados nos “pimientos de padrón”, que eu lhes apresentei na etapa anterior.

A famosa tortilha de batata de Betanzos!

A famosa tortilha de batata de Betanzos!

Comidinhas do Caminho: pulpo a feira, pimientos de padrón, croquetas e chipirones

Comidinhas do Caminho: pulpo a feira, pimientos de padrón, croquetas e chipirones

Albergue de Betanzos, Caminho Inglês

Albergue de Betanzos, Caminho Inglês

Betanzos, Caminho Inglês

Betanzos, Caminho Inglês

A etapa até Hospital de Bruma foi a mais longa do Caminho Inglês (28 Km) e, depois de sofrer para termina-la, escrevi uma observação no meu diário para, no futuro, fazê-la em duas partes, dormindo em Presedo. O trecho parecia não ter fim, algumas partes eram bem chatas e havia muitas subidas para um único dia. Sabíamos que o albergue público tinha apenas 22 lugares e que não haveria espaço para todos. Por isso, no dia anterior, já deixamos reservado um quarto no único hotel na área (Hotel Canaíma, no povoado de O Mesón do Vento). Além disso, todos os peregrinos daquela semana tiveram a mesma ótima idéia de chegar em Santiago um dia antes da festa do Santo. Ou seja, o Caminho estava cheio. Eu já tinha me arrependido de ter tido essa idéia, mas era tarde pra isso, e o Caminho sempre ajuda os peregrinos de alguma forma. Nosso presente foi dormir essa noite em um quarto com apenas 3 camas, lençóis, toalhas brancas e cobertores quentes. E um banheiro apenas para nós 3 – porque nós merecemos 😉

Meus companheiros italianos de caminhada

Meus companheiros italianos de caminhada

O amanhecer na seguinte etapa até Sigüeiro foi de filme: um céu que misturou vários tons vermelho e laranja e me fez demorar para começar a caminhada, porque eu simplesmente não conseguia parar de tirar fotos. O casal italiano começou a falar sem parar e eu queria ficar um pouco quieta, talvez porque era o penúltimo dia e tudo estava prestes a terminar. E a névoa, que alguns chamam de bruma (e eu acho que é o motivo do nome da cidade) deu seu toque especial à paisagem. Vimos todos os peregrinos das etapas anteriores passando por nós, mas eu já tinha minha cama reservada em um albergue privado (não há albergue público em Sigüeiro), então não havia pressa nenhuma! Mas a reta final desse trecho é pra acabar com qualquer um – não terminava nunca! Ninguém queria cantar (eu acho uma ótima maneira de passar o tempo), e eu não sabia o que mais fazer para vencer o tédio nessa reta interminável. Mas nós conseguimos!

Céu de brigadeiro na saída de Hospital de Bruma

Céu de brigadeiro na saída de Hospital de Bruma

Saindo de Hospital de Bruma, Caminho Inglês

Quando me perguntam se o Caminho Inglês é perigoso, eu mostro essa foto…me salvei por pouco! 😉

O meu último dia, de Sigüeiro a Compostela, foi divertido, e é bacana olhar para trás e lembrar dele. Finalmente o grande momento estava se aproximando e eu só queria aproveitá-lo como ele merecia. A entrada em Santiago pelo Caminho Inglês é feita pela igreja de San Francisco, e isso foi uma ótima surpresa. E quando ouvi a gaita tocando ao lado da catedral, toda a emoção de estar mais uma vez em Santiago me encheu de alegria e felicidade. E que o Universo tenha me permitido fazê-lo uma vez mais (a sétima vez!), e tenha sido cuidadoso e enviado anjos para me fazer companhia e ensinar-me que tudo o que você dá, você recebe de volta… isso não tem preço.

Chegada a Santiago de Compostela

Quando eu decidi fazer o Caminho Inglês, não sabia o que eu ia encontrar. É um caminho com muitos italianos, muito verde, sol, pessoas amigas, tortilhas saborosas, longos rios e belas pontes… e também com poucos locais de albergue para o mês de julho – evite a semana da Festa de Santiago (no resto do ano dizem que são mais do que suficientes), e com alguns contratempos que podem ser esquecidos rapidamente, porque há muitas pessoas amigáveis de grupos em redes sociais que te ajudam a planejar, tomar decisões e recomendar a reserva de hotéis para que você não durma na rua.

Santiago nos guia e nos dá exatamente o que precisamos. Foram 6 dias inesquecíveis que eu desejo que todos tenham a oportunidade de vivê-los por uma semana em suas vidas, e repeti-los sempre que quiserem para escapar da rotina e abrir –se a novas experiências, sensações e amizades peregrinas.”

Caminho Inglês de SantiagoBom Caminho!

Guia Caminho de Santiago That Good Trip

Se você pensa em fazer o Caminho de Santiago um dia, ou conhece gente que vai fazê-lo, esse guia prático pode ser bastante útil! Aqui tem todas as dicas para a sua preparação e pra fazer esse sonho sair do papel. Clique na imagem ao lado e faça o download grátis 🙂

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About the Author

Jornalista e travel blogger. Aprende o que o mundo ensina e inspira as pessoas a viajarem. Já morou na Finlândia, já trabalhou na Disney, fez o Caminho Inca e foi como peregrina a Santiago de Compostela algumas vezes. Vive atualmente em Madri e continua transformando seus feriados e férias de 23 dias ao ano nos melhores períodos da sua vida.



2 Responses to Caminho Inglês – de Ferrol a Santiago em 6 dias

  1. Adelino Oliveira Martins says:

    Tb já fiz esse caminho em quatro dias e foi um excelente desafio ao físico, mas compensado pelas buliçosas paisagens e pela arquitetura do caminho.

    • Suzana says:

      Olá Adelino! Sim, é possível fazê-lo em menos dias. Mas haja físico 😉 Eu gosto de fazê-lo “render” mais justamente para apreciar melhor as paisagens, a arquitetura e a comida principalmente! Bom Caminho!

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