Buen Camino Caminho de Santiago em família

Published on | by Suzana

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Caminho de Santiago em família

Sempre que vejo pais e filhos fazendo o Caminho de Santiago em família eu fico encantada. Por muito tempo eu pensei que eram os filhos que traziam o pai, ou a mãe, mas ano passado vi vários exemplos de mães que começaram o Caminho do início e marcaram de encontrar o filho ou filha, e até o marido, em uma etapa mais adiante e seguiram com eles até o final.

Eu já havia pensado em chamar os meus pais pra uma viagem à Europa e queria que eles conhecessem um pouco dessa experiência bonita e transformadora. Inicialmente pensei em chamar só o meu pai, porque ele está mais “em forma” que minha mãe, mas como ela não ia aceitar ficar sozinha em Santiago por uns dias esperando a gente chegar, ela entrou no pacote junto 😉

Decidi levá-los aos últimos 100 Km de Sarria a Santiago (que na verdade são 115km) porque é o percurso mais cômodo e estruturado para peregrinos de primeira viagem. Havia também pensado em ficar nos albergues privados, que são menos cheios e alguns até mais novos que os públicos, mas que ainda assim iam dar uma noção boa do que é ser peregrino, dividir quartos com beliches entre várias pessoas, dormir ao som de roncos, etc. Eu queria trazê-los o mais próximo possível da minha realidade e realizar o sonho de ser uma família no Caminho de Santiago.

Caminho de Santiago

Minha família no Caminho de Santiago

Ainda bem que deu tudo certo e o dia de realizar esse sonho chegou! Eles vieram do Brasil a Madrid e, sozinhos, se viraram no dia seguinte pra chegar à estação de trem e ir a Sarria, seguindo minhas indicações. Deu tudo certo e eu os estava esperando no destino. Fomos ao nosso quarto particular no albergue em Sarria e nos instalamos, separamos qual roupa ia pra mochila de caminhada e qual ficava na mala a ser mandada direto a Santiago através de um serviço proporcionado pelos Correios, que se chama El Camino con Correos. Dormimos e, na manhã seguinte, #partiuCaminhodeSantiago.

Caminho de Santiago

ONDE DORMIR EM SARRIA
Saindo de Sarria, já depois da segunda hora caminhada, minha mãe se cansou. E isso que ela disse que fazia suas caminhadas e subia e descia escadas da sua casa em Curitiba. Mas eu estava querendo projetar nela o que via em outras senhoras da idade dela durante o Caminho, mas a verdade é que cada corpo tem os seus próprios limites, e isso não é pelo fator idade, e sim pelo perfil de cada pessoa. Há idosos com muitos mais anos que minha mãe, que tem 66 anos, que estão acostumados a caminhar e vão muito bem no Caminho. Por outro lado, há jovens que têm dores nos joelhos já no segundo dia. Como não dá pra saber tudo isso antes (e eu sinceramente achava que ela ainda aguentasse), eu projetei coisas que não existiam. Claro que fomos mais devagar, paramos várias vezes mas, depois desses 10 km iniciais, chegamos a um bar pouco antes de Ferreiros, onde decidimos almoçar tranquilamente e tomar umas cervejas bem geladas. E partimos para o plano B: chamamos um táxi e fomos ao hotel que já estava reservado em Portomarín. Ah sim, ela não quis ficar em albergue de peregrinos. Mais uma expectativa frustrada com relação à realidade (eu fiquei no albergue já que o hotel não aceitava mais de 2 pessoas por quarto).

Caminho de Santiago
No dia seguinte, já começando a entender melhor o drama que eu tinha em mãos, olhei a topografia da etapa e achei um ponto onde começaria uma descida e pensei que seria ideal pra eles. Foi assim que marcamos de nos encontrar em Ventas de Narón. Eu iria pra lá caminhando a partir das 7h e fiz as contas e vi que levaria mais ou menos 2 horas e meia pra chegar ao ponto de encontro. Cheguei ao bar e eles já estavam esperando ali. Depois foram duas horas tranquilas de descida e com menos reclamações de cansaço. Meu pai ia bem, por ele acho que andaria todo o trecho de 25 km, mas ele não ia deixar minha mãe de lado. Chegamos perto de uma rodovia, cruzamos ao outro lado e encontramos um restaurante na hora exata que eles já estavam cansados e com fome. Batia um vento bem gostoso e passamos umas duas horas ali. Seguindo o novo costume, chamamos um táxi e eles foram para o hotel descansar, enquanto eu seguia em frente pra caminhar outro trecho de uns 12 km com o sol da tarde, que eu ainda não conhecia bem. Foi uma caminhada longa e solitária, mas tranquila e feliz, até encontrá-los no hotel em Palas de Rei. Dessa vez me hospedei ali, ganhando um quarto só pra mim, que luxo!

Caminho de Santiago
E foi assim até Monte do Gozo. Nos hospedamos em um hotel em Monte do Gozo, povoado também conhecido por San Marcos,  onde ficamos pra poder ir caminhando os últimos 5 km pra chegar a Santiago no dia seguinte. Naquela altura eles já estavam mais experientes e confiantes, minha mãe seguia firme com seu cajado de madeira e os três chegamos juntos à praça do Obradoiro. Foi a realização de um sonho.

Caminho de Santiago em familia

 

O que aprendi com essa experiência:

  • Leve seus pais ao Caminho, mas não espere que eles caminhem na mesma velocidade que você.
  • Respeite a vontade deles de parar pra descansar muito mais vezes do que você pararia.
  • Pais gostam de conforto. Deixe que parta deles a escolha do lugar pra dormir, ainda que você ache os albergues uma solução fantástica.
  • Sugira que eles caminhem com o seu tênis mais usado e confortável.
  • Prefira temporadas médias a temporadas altas, e épocas do ano com mais sol que chuva (junho e julho, setembro e começo de outubro).
  • Deixe sua mãe comprar todos os colares e broches e enfeites que ela quiser. Mesmo que sejam as conchas da praia. É tudo diferente e lindo pra elas.
  • Nossos pais têm mais o perfil de turisgrinos que de peregrinos. Aceite.
  • Divida máquinas de lavar roupa todos os dias ou sempre que necessário. Deixe essa história de lavar à mão pra você que tem mais energia.
  • Divirtam-se! Colham juntos muitas frutas do pé, eles vão adorar lembrar dos tempos de infância.

Caminho de Santiago

Epílogo:

Existem diferentes tipos de pais. Desde os esportistas aos entusiastas, e também os que aceitam as propostas dos filhos de coração aberto. Afinal eles já fizeram tudo pela gente e continuarão fazendo. Os meus foram ao Caminho de Santiago por insistência minha. Pode não ter sido a viagem da vida deles, mas com certeza marcou a minha primeira vez percorrendo os 890 km que separam Saint Jean Pied de Port a Finisterra, em junho de 2014. Que sensação incrível tê-los comigo nos meus últimos quilômetros. Foi mais difícil e desafiador? Foi. Deixei os meus amigos seguirem adiante pra ficar com eles? Deixei. Valeu a pena? Totalmente. Obrigada Seu Paulo e Dona Sandra 🙂

Caminho de Santiago

PS: eu soube, em conversas nos anos seguintes, que eles adoraram a experiência, e os perrengues agora são lembrados com muita risada, já viraram piada – como têm que ser. O bastão de caminhada da minha mãe está repousando ao lado da cama dela, e ela sempre conta pro médico que ela vai conseguir certo objetivo pois, afinal, ela já fez o Caminho de Santiago <3

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About the Author

Jornalista e travel blogger. Aprende o que o mundo ensina e inspira as pessoas a viajarem. Já morou na Finlândia, já trabalhou na Disney, fez o Caminho Inca e foi como peregrina a Santiago de Compostela algumas vezes. Vive atualmente em Madri e continua transformando seus feriados e férias de 23 dias ao ano nos melhores períodos da sua vida.



14 Responses to Caminho de Santiago em família

  1. Parabéns Suzana. Sua atitude foi fantástica

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  9. Juliane says:

    Adorei a experiência, Suz! Não penso em fazer o caminho com minha mãe, mas me diga, qual a idade ideal para se aventurar no caminho com os filhos?

    • Suzana says:

      Oi Juli, que bom que você gostou! Olha, já vi crianças de várias idades no Caminho. Arrisco dizer que de 9 anos em diante, sempre e quando a criança esteja acostumada a caminhar. Menos que isso, elas se cansam muito rápido. Aí tem que atuar como se fosse um adulto idoso cansado: parar, pegar um táxi ou ônibus até o albergue mais próximo. Mas tem muita gente que faz com os filhos!

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